As denúncias contra o STF não é um "novolajatismo" e a esquerda precisa entender isso
A estratégia recente de parte do campo governista de enquadrar críticas ao Supremo Tribunal Federal como uma reedição do “lavajatismo” revela mais um reflexo defensivo do que uma análise política consistente. É compreensível que, após os efeitos profundos da Operação Lava Jato ( que impactou diretamente o Partido dos Trabalhadores e ainda mais negativamente o Brasil ), haja uma tendência de suspeitar de narrativas baseadas no moralismo anticorrupção. No entanto, transformar toda denúncia ou questionamento institucional em uma suposta conspiração política não apenas empobrece o debate público, como também pode gerar um efeito de blindagem indevida das instituições.
Esse problema ficou ainda mais evidente no episódio envolvendo o chamado “caso Master”, no qual denúncias de irregularidades financeiras e possíveis conexões políticas rapidamente foram reinterpretadas por setores governistas como parte de uma ofensiva maior contra o campo progressista e contra o próprio Judiciário. O que poderia ter sido tratado como uma investigação a ser acompanhada com cautela e transparência acabou sendo absorvido pela lógica da disputa moral: de um lado, uma suposta tentativa de desestabilização institucional; de outro, uma reação defensiva que antecipadamente desqualifica qualquer crítica.
Figuras centrais do petismo, como Luiz Inácio Lula da Silva, e lideranças partidárias como Gleisi Hoffmann, têm reiterado a necessidade de proteger o Judiciário de ataques que consideram desestabilizadores. O problema surge quando essa defesa se torna automática e indistinta, incapaz de separar ataques oportunistas de críticas legítimas. Em uma democracia madura, instituições não se fortalecem pelo silêncio ou pela blindagem política, mas pela capacidade de suportar escrutínio público constante.
Ao adotar essa leitura ampla de “neolavajatismo”, o governo corre o risco de se desconectar de uma parcela da sociedade que não está necessariamente alinhada com agendas conservadoras, mas que exige transparência, responsabilidade e coerência das instituições. Mais do que isso, reforça a percepção de que há uma seletividade na forma como o poder reage às críticas, o que pode minar a confiança pública justamente no momento em que ela é mais necessária.
Se há uma lição a ser extraída do ciclo político recente, é que o combate a abusos judiciais não pode se converter em complacência com eventuais problemas institucionais. Defender o Estado de Direito implica, também, reconhecer que nenhuma instituição está acima de questionamentos. O episódio do banco Master, nesse sentido, funciona como um alerta: ao transformar automaticamente denúncias em narrativa de perseguição, perde-se a oportunidade de reafirmar um compromisso genuíno com a transparência e, com isso, enfraquece-se o próprio campo que se pretende proteger.
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